26.5.06

RESENHA

AS DUAS CULTURAS E UMA SEGUNDA LEITURA - C.P SNOW
( em 1959 e 1963 )

A obra As Duas Culturas e uma Segunda Leitura do escritor Charles Percy Snow é uma versão ampliada do livro Duas Culturas e a Revolução Científica traduzida por Geraldo Gerson de Souza e Renato Azevedo Rezende Neto. A obra apresenta duas partes, sendo que a primeira retrata a Palestra da Rede pronunciada em 1959 pelo próprio Charles Percy Snow. Nela, SNOW divulga a divisão de duas culturas para apontar diversidades entre cientistas e não cientistas (literatos), compara países industrializados e não industrializados e ressalta a urgência dos ricos ajudarem os pobres para diminuir as desigualdades entre eles. A segunda parte do livro representa a Segunda Leitura, escrita quatro anos após a palestra original (em 1963), comentando as reações que provocou em relação à educação e à existência de sociedades favorecidas e desfavorecidas. Ele não se envolveu em um debate, esperou as idéias se sedimentarem, de ouvir os comentários e de analisar novos acontecimentos, afastou personalidades, críticas carregadas de níveis anormais. Na Segunda Leitura, o autor se dispôs a lançar um segundo olhar sobre a palestra com subsídios de novos conhecimentos científicos, sociológicos e históricos.
Para o autor, “os não cientistas têm a impressão arraigada de que superficialmente os cientistas são otimistas e inconscientes da condição humana. Por outro lado, os cientistas acreditam que os literatos são totalmente desprovidos de previsão, peculiarmente indiferentes aos seus semelhantes num sentido profundo são antiintelectuais e ansiosos por restringir a arte e pensamento ao presente imediato”. Essas afirmações são fundamentadas nas relações diretas do autor com cientistas e literatos com os quais conviveu.
Ao justificar o título: duas culturas, diz que “o número 2 (dois) é muito perigoso”. A tentativa de dividir tudo por dois é recebida com muita suspeita, sendo considerada pelos não cientistas como uma supersimplificação. Os críticos da época, consideraram a existência de pelo menos três culturas, pois compartilham boa parte do sentimento científico. O autor condena, na época retratada, a cultura literária que demonstrava a incompreensão total da ciência e introduz o sentimento não-científico em toda cultura tradicional. Havia uma polarização que determinava a perda prática, intelectual e criativa. Isso confirma a divisão de duas culturas.
Com relação ao sentido antropológico de cultura, que é mais técnico e usado por antropólogos para definir pessoas que vivem no mesmo lugar com hábitos e modo de vida em comum, pode-se perceber padrões comuns de comportamento e preferência entre cientistas diferentes dos não cientistas.
Na segunda leitura do livro, o autor mostra-se favorável à existência de subdivisões da cultura científica pelas diferentes áreas da ciência, mas que para ele apresentam pontos em comum que permitem a consolidação de uma cultura científica. Mesmo que a ciência pura tenha se originado do desejo de compreender o mundo natural e ciência aplicada (tecnologia) da necessidade de controlá-lo, ele afirma existir similaridades entre essas duas ciências pelo fato de uma encontrar e expressar sua motivação na outra. É fato que o autor considera ciência aplicada como sinônimo de tecnologia sabendo que essa palavra não está relacionada somente com a ciência, não é somente fruto da Ciência.
Diferentes áreas humanas têm interesse de saber como seres humanos estão vivendo, como são os efeitos humanos da revolução científica. Nesse momento, vê-se que o estudo que, tem como objeto o homem e seus comportamentos e hábitos, parece ser reconhecida pelo autor como não fazendo parte da ciência. Para ele, isso poderia em hipótese ser considerado como terceira cultura. Tal fato pode ser confirmado em outro momento do livro em que relata que a Inglaterra não reconhece as áreas social e humana como foco de estudo.
Em vários momentos, o autor procura explicar e justificar a existência das duas culturas. Ele relatou que essa divisão é mais aguda na Inglaterra pela excessiva especialização em ciência até os 18 anos e pela tendência de se cristalizar suas formas sociais. Diz não ter possibilidade de comunicação entre as duas culturas e na época dele (década de 50) expressões erradas sobre a ciência são usadas na arte. A primeira poderia ter sido mais útil à segunda. No entanto, atualmente, se considerarmos os avanços tecnológicos que englobam as artes visuais (a computação gráfica, a ficção científica, a inteligência artificial) enfim todos os meios de divulgação científica a distância e o preconceito com relação à categoria artística diminuiu.
Ao dar continuidade à explicação da segunda leitura, o autor considera uma outra razão para a divisão das duas culturas está relacionada com o fato dos intelectuais não cientistas não conseguirem compreender e aceitar a Revolução Industrial. A cultura tradicional (relacionada à cultura literária) deixava de lado a Revolução à medida que se enriquecia além de educar os jovens para o propósito de perpetuar a própria cultura, mas não para compreender a revolução ou se tornar parte da dela. Segundo as idéias do autor, não há como impor esse tipo de rejeição à industrialização àqueles que não tem escolha, aos pobres que passavam mais dificuldades quando eram trabalhadores rurais (antes da Revolução Industrial).
Daí o autor como em outros momentos ressalta a importância de se rever a educação na Inglaterra, pois ela não conseguiu enfrentar a revolução científica como em outros países. Ele faz comparações entre a educação russa e a inglesa, dizendo que a russa é menos especializada do que a inglesa e mais árdua que a americana tanto que para os não-acadêmicos, ela se revelou bem difícil. Os russos formam mais engenheiros e cientistas do que os americanos e os ingleses e por isso parecem compreender melhor a revolução científica do que os outros dois. O fato de haver menor distância entre as duas culturas na URSS, ao se constatar que os romances têm maior familiaridade com a indústria e maior fé ardente na educação, permite dizer que os russos estão à frente da revolução científica. Os russos souberam avaliar os tipos e a quantidade de homens e mulheres educados, dando atenção não somente a classe de cientistas de alto nível e nem a profissionais de bom nível para pesquisas de apoio, projeto e desenvolvimento, mas também aqueles de formação técnica, iniciados em ciências naturais ou mecânicas que são extremamente importantes para revolução científica. Nesse sentido, a Inglaterra fica atrás no processo de revolução científica, pois desconsidera a mulher para seguir a carreira científica e desqualifica a formação de nível técnico. No país inglês, faz-se necessário romper com o padrão rígido da Educação e das Duas Culturas.
Antes da Inglaterra e dos EUA se prepararem para a revolução científica, é necessário que eles contribuam para diminuir o fosso entre ricos e pobres, sabendo que na época em que a palestra aconteceu, os países industrializados estavam ficando mais ricos e países não industrializados já estavam estacionados. Ele diz que esse fosso pode ser eliminado com o acompanhamento de guerras e de fome. Ele será eliminado, mas como e por quem, não se sabe. Segundo o autor, os países pobres precisam ter capital (de fora) para alcançar a industrialização e a revolução científica precisa antes de tudo desse capital, inclusive em maquinaria. Também se precisa de homens – cientistas e engenheiros - para se dedicarem à industrialização do país estrangeiro. “Felizmente a atitude natural de um cientista é desprovida de sentimentos raciais e sua própria cultura é democrática em termos de relações humanas”. Eis aí, uma defesa aos cientistas, à cultura científica tão menosprezada pelos literários. Finalizando esse contexto, “para o bem da vida intelectual da Inglaterra, para o bem da sociedade ocidental (EUA), para o bem do pobre que não precisará ser pobre, é importante que os americanos e todo o Ocidente encarem a educação de uma nova forma” (SNOW, 1959).
Pode-se perceber que passados 50 anos, os países denominados pobres, considerados atualmente de subdesenvolvidos, desenvolveram-se industrialmente por um financiamento por parte de países como os EUA. A ajuda não foi sinônima de uma situação favorável aos países pobres, mas garantiram a dependência desses com relação aos países ricos. Por exemplo, o Brasil não tem um investimento considerável em pesquisa tecnológica e por isso adota medidas de transferência de tecnologia e busca o intercâmbio com as fontes de conhecimentos e informações. Mesmo com a iniciativa no desenvolvimento de programas de educação tecnológica que possibilitem aos trabalhadores adquirir novas tecnologias de produção, novas formas de organização da produção, de gestão da tecnologia e da inovação adequadas à nova realidade globalizada, há também o descaso da elite econômica que se contenta em importar desde insumos até produtos acabados. (CARVALHO, s.d)
Ao introduzir o termo cultura científica em seu livro, o autor mostra alguns exemplos de cultura científica, sobre cultura científica cita exemplos como os de Crick e Watson que chegaram à estrutura de DNA, ensinando-nos sobre a herança genética “na vida individual de cada um existe muita coisa sobre a qual, afinal de contas, não temos grande influência”. Ao se referir à cura para as doenças, ou pelo menos o método de evitá-la ou de apaziguá-la significa que não é necessário descobertas científicas milagrosas embora essas descobertas devam nos ajudar, mas atos conscientes da revolução científica é que devem ser disseminados pelo mundo. A esses atos científicos, considerados de certa forma hábitos culturais, cujos valores e concepções são intrínsecos ao próprio ato, em parte determinam a cultura científica. Um exemplo simples é o hábito de se lavar as mãos numa época em que se desconsiderava a proliferação de doenças por meio de da contaminação por germes transmissores da própria doença ou por diversos outros.
Nesse aspecto, o autor coloca em destaque a preferência no que se refere à vida em relação a morte. É visível em suas colocações, que as pessoas não passem fome ou que não vejam seus filhos morrerem. Enfatizando a importância de nutrir compaixão pelo ser humano, para que haja interesse humano recíproco. E completa: “felizmente a maioria de nós não é assim tão insensível”. O autor considera dessa forma aspectos humanos e científicos e culturais.
Em exemplos bem lembrados o autor mostra a importância dos movimentos sociais das artes que modificaram o pensamento e as ações das pessoas naquele momento, como O MOVIMENTO MODERNISTA - Manifestado especialmente pela arte, o movimento modernista visto polo autor como prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. Lembrando que a arte moderna influenciou a forma de ver o mundo e os acontecimentos, incluindo a atitude de artistas em relação às suas própria formas de fazer a arte e de expressá-la. A ousadia e a mudança de ambientes para a produção artística era contaminante. Tudo isso fez com que novos rumos temáticos e estéticos fossem buscados pelos artistas e pelos literatos.
Em relação à literatura e as artes defende que “o uso do sistema simbólico de pensamento são as mais preciosas qualidades humanas. Seja ela literária ou científica”. Exemplifica: “as mais belas prosas escritas por acaso durante uma geração, demonstram os valores intelectuais, estéticos e morais inerentes ao estudo científicos”.
Ao usar a palavra cultura, o autor declara que “somente a falta de imaginação ou a ignorância absoluta, poderia rejeitar o uso da palavra cultura em relação aos cientistas”. Observa assim, que mesmo com a condição individual, a condição social é parte de nós e somos parte dela. Enfatizando que isso não pode ser negado e com um olhar um tanto otimista assegura que a revolução científica promoverá as transformações. Mudará a educação, a matriz social e numa velocidade maior do que já ocorreu. Mas adverte: “as mudanças na educação sozinhas não irão solucionar os nossos problemas. Mas sem essas mudanças, nem sequer compreenderemos quais são os problemas. A divisão da nossa cultura está nos tornando mais obtusos do que necessitamos ser”.
Para SNOW, é importante educar nossos alunos para que não desconheçam a experiência criativa, tanto na ciência quanto na arte e que, não ignorem as possibilidades da ciência aplicada, o sofrimento irremediável dos seus contemporâneos e as responsabilidades que uma vez estabelecidas não podem mais ser negadas. Para complementar a idéia final do livro tão esclarecedor de Snow, é sob o olhar do pensamento complexo que anuncia Edgar Morin:
“Compreender tudo isso exige uma nova aprendizagem, pois fomos formados em um sistema de ensino que privilegia a separação, a redução, a compartimentalização, o próprio corporativismo dos saberes, que fraciona e aliena nosso modo de pensar; em conseqüência, uma reforma do pensamento se impõe. Sua necessita é vital, porque a degradação da aptidão para globalizar e para contextualizar os problemas, para estabelecer os elos em cadeia do local e do global, para compreender suas interações é tão mais grave quanto os problemas fundamentais que são globais e complexos. Tudo isso se encontra tecido junto”. (MORIN, 1998).
Em relação a novas abordagens de linguagem tecnológicas que em um dado momento acabaram por influenciar ou até modificar a cultura na atualidade, LÉVY (1999) utiliza termo ciberespaço pelos modos materiais da comunicação digital e também pelo universo de informações que ela contempla, assim como os seres humanos que “navegam” e os que sobrevivem desse sistema.
Nesse aspecto, “cibercultura” termo definido por LEVY, (1999), como uma cultura que “mantém a universalidade ao mesmo tempo em que dissolve a totalidade”, ou seja, ao mesmo tempo em que nossa sociedade tende se tornar uma única comunidade mundial, essa comunidade ainda é desigual e conflitante.
Percebemos ao final desse trabalho que a diferença que se estabelece hoje entre as duas culturas é muito mais amena do que quando foi publicado o livro As Duas Culturas e Uma Segunda Leitura, embora o autor já admitisse a possibilidade da conexão não só entre as diversas culturas como a forma de comunicação entre elas.
Para concluir nossa observação feita em relação a constantes conexões intrínsecas a cultura, a educação, tecnologia e ciências, citamos também LEMOS (2003) que compreende como a forma sociocultural que surge da relação entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 1970. Para ele, o prefixo “ciber” dá a entender um novo determinismo tecnológico. A cibercultura é a cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais. Segundo ele vivemos já a cibercultura. Ela não é o futuro que vai chegar e sim o nosso presente (home banking, cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros). Trata-se assim de escapar, seja de um determinismo técnico, seja de um determinismo social. A cibercultura representa a cultura contemporâneas sendo conseqüência direta da evolução da cultura técnica moderna (LEMOS, 2003:12).

Referências bibliográficas

CARDOSO, Tereza Fachada Levy. Sociedade e Desenvolvimento Tecnológico: uma abordagem histórica. In: GRISPUN, Mirian Paura Sabrosa Zippin (org). Educação Tecnológica: Desafios e Perspectivas. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2001. p 183-225.

CARVALHO, Marília Gomes de. Tecnologia, Desenvolvimento Social e Educação Tecnológica. Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa: São Paulo, s.d. Disponível em: . Acesso em: jan/2006.

LEMOS, André; CUNHA, Paulo (orgs). Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Editora Sulina, 2003; pp. 11-23.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo, Editora 34, 1999.

MORIN, E. MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 3. ed. Editora Lisboa: Instituto Piaget, 2001.177p

MORIN, Edgar. Por uma Reforma de Pensamento. In: PENA-VEGA, Alfredo; N., Elimar Pinheiro do Nascimento. O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade. Ed. Garamond. Rio de Janeiro, 1999.

SNOW, Charles Percy. As Duas Culturas e uma segunda leitura: uma versão ampliada das Duas Culturas e a Revolução científica; trad. Geraldo Gerson de Souza / Renato de Azevedo Rezende Neto – S. Paulo, 1995. 120 p.

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